Aristóteles na rede

http://www.obrasdearistoteles.net/ – tradução (em andamento) de todas as obras de Aristóteles – em português!

http://www.non-contradiction.com/ – blog com todas as obras de Aristóteles e material de apoio (em inglês)

O conceito de physis

Bornheim., G. Os Filósofos Pré-socráticos, p. 11-4:

Aristóteles, em sua Metafisica, chamou os filósofos pré-socráticos de physikoi, físicos. A expressão não é incorreta, mas presta-se facilmente a equívocos. A “física” pré-socrática nada tem a ver com a física na acepção moderna da palavra, assim como a physis não pode ser traduzida sem mais pela palavra natureza. Hoje, a natureza tende a confundir-se sempre mais com o objeto das ciências da natureza, com algo que pode ser dominado pelo homem, que pode ser posto a seu serviço e canalizada em termos de técnica. Desta forma, a natureza transforma-se em expressão da vontade de poder.

Mas não é dentro desta perspectiva que podemos aceder ao conceito pré-socrático da natureza. A física das primeiros filósofos gregos não é uma disciplina que se contraponha a outras disciplinas, como a Lógica, a Ética ou a Física tal como se a compreende hoje. Se chamarmos, com Aristóteles, de física a filosofia pré-socrática devemos entender por esta expressão o ser do ente na sua totalidade.

Como a physis é o conceito fundamental de todo o pensamento pré-socrático, cabem aqui algumas breves observações introdutórias ao tema.

Etimologicamente, physis é um abstrato formado pelo sufixo sis e pela raiz verbal phy; na voz ativa: phúein, na voz média: phúesthai. Patzer analisa a palavra em função de Homero, e constata que estas duas formas verbais são aplicadas preferencialmente ao mundo vegetal. Na voz ativa significa produzir (como o bosque que na primavera produz folhas), e na voz média significa crescer (aos ciclopes, “tudo cresce sem semente e sem arado”). O reino vegetal seria, assim, o originário, estendendo-se, mais tarde, o significado do verbo a ponto de assumir uma amplidão máxima. Jaeger diz que a palavra physis designa o processo de surgir e desenvolver-se, razão pela qual os gregos a usavam freqüentemente com um genitivo. E acrescenta Jaeger: “Mas a palavra abarca também a fonte originária das coisas, aquilo a partir do qual se desenvolvem e pelo qual se renova constantemente o seu desenvolvimento; com outras palavras, a realidade subjacente às coisas de nossa experiência”. Burnet, por sua vez, afirma que “na língua filosófica grega, physis designa sempre o que é primário, fundamental e persistente, em oposição ao que é secundário, derivado e transitório”.

Já por estas sumárias indicações percebe-se a densidade filosófica que acompanha a palavra physis, conceito complexo do qual depende a compreensão que se possa ter do pensamento pré-socrático. Insistindo um pouco mais no problema, podemos destacar três aspectos fundamentais da physis:

1) A palavra physis indica aquilo que por si brota, se abre, emerge, o desabrochar que surge de si próprio e se manifesta neste desdobramento, pondo-se no manifesto. Trata-se, pois, de um conceito que nada tem de estático, que se caracteriza por uma dinamicidade profunda, genética. “Dizer que o Oceano é a gênese de todas as coisas é virtualmente o mesmo que dizer que é a physis de todas as coisas”, afirma Werner Jaeger referindo-se a Homero. Neste sentido, a physis encontra em si mesma a sua gênese; ela é arké, princípio de tudo aquilo que vem a ser. O pôr-se no manifesto encontra na physis a força que leva a ser manifesto. Por isto pode Heidegger dizer que “a physis é o próprio ser, graças ao qual o ente se torna e permanece observável”.

2) Em nossos dias, a natureza se contrapõe ao psíquico, ao anímico, ao espiritual, qualquer seja o sentido que se empreste a estas palavras. Mas para os gregos, mesmo depois do período pré-socrático, o psíquico também pertence à physis. Esta importante dimensão da physis pode ser melhor compreendida a partir de sua gênese mitológica. Lá afirmamos que os deuses gregos não são entidades sobrenaturais, pois são compreendidos como parte integrante da natureza. Em Homero, por exemplo, a presença dos deuses aparece como superior aos homens e ao mesmo tempo como algo que lhes é próximo: os deuses estão presentes em tudo o que acontece e tudo acontece como que através dos deuses. Esta presença transparece ainda em Tales, na frase que lhe é atribuída: “tudo está cheio de deuses”. Evidentemente, com o surto da Filosofia a atitude do homem frente às coisas sofre uma transformação, acentuando-se a exigência de racionalidade. Segundo Jaeger, Tales emprega a palavra deus “em um sentido um tanto distinto daquele em que a empregariam a maioria dos homens”. Os deuses de Tales não vivem em uma região longínqua, separada, pois tudo, todo o mundo que rodeia o homem e que se oferece ao seu pensamento, está cheio de deuses e dos efeitos de seu poder. “Tudo está cheio de misteriosas forças vivas; a distinção entre a natureza animada e a inanimada não tem fundamento algum; tudo tem uma alma. Esta idéia da alma, de forças misteriosas que habitam a physis, transforma a esta em algo de inteligente, empresta-lhe certa espiritualidade, afastando-a do sem-sentido, anárquico e caótico. Veja-se, como exemplo, o fragmento 67, de Heráclito: “Deus é dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, abundância e fome. Mas toma formas variadas, assim como o fogo, quando misturado com essências, toma o nome segundo o perfume de cada uma delas.” Ou ainda o fragmento 64: “O relâmpago (que é a arma de Zeus) governa o universo.” Esta idéia de que o deus pertence em algum sentido à physis é característica de todo o pensamento pré-socrático, e continua viva mesma em Demócrito, como o atestam os fragmentos 18, 21, 112 e 129. À physis pertence, portanto, um principio inteligente, que é reconhecido através de suas manifestações e ao qual se emprestam os mais variados nomes: Espírito, Pensamento, Inteligência, Logos, etc.

3) A physis compreende a totalidade de tudo o que é. Ela pode ser apreendida em tudo o que acontece: na aurora, no crescimento das plantas, na nascimento de animais e homens. E aqui convém chamar a atenção para um desvio em que facilmente incorre o homem contemporâneo. Posto que a nossa compreensão do conceito de natureza é muito mais estreita e pobre que a grega, o perigo consiste em julgar a physis como se os pré-socráticos a compreendessem a partir daquilo que nós hoje entendemos por natureza; neste sentido, se comprometeria o primevo pensamento grego com uma espécie de naturalismo. Em verdade, a physis não designa precisamente aquilo que nó, hoje, compreendemos por natureza, estendendo-se, secundariamente ao extranatural. Para os pré-socráticos, já de saída, o conceito de physis é o mais amplo e radical possível, compreendendo em si tudo o que existe. Não se compreende o psíquico, por exemplo, a partir do modo de ser da natureza em seu sentido atual, como não se entende os deuses a partir de nosso conceito mais parco de natureza. À physis pertencem o céu e a terra, a pedra e a planta, o animal e a homem, o acontecer humano como obra do homem e dos deuses, e, sobretudo, pertencem à physis os próprios deuses. Devido a esta amplidão e radicalidade, a palavra physis designa outra coisa que o nosso conceito de natureza. Vale dizer que na base do conceito de physis não está a nossa experiência da natureza, pois a physis possibilita ao homem uma experiência totalmente outra que não a que nós temos frente à natureza. Assim, a physis compreende a totalidade daquilo que é; além dela nada há que possa merecer a investigação humana. Por isto, pensar o todo do real a partir da physis não implica em “naturalizar” todos os entes ou restringir-se a este ou aquele ente natural. Pensar o toda do real a partir da physis é pensar a partir daquilo que determina a realidade e a totalidade do ente.

Filosofia diafônica

Diaphonía : controvérsia, discrepância. Literalmente: “através de várias vozes”

“O que a diaphonía invoca [no ceticismo pirrônico] é a eterna pluralidade conflitante das posições e teses filosóficas sobre qualquer tema, faz apelo à experiência inevitável e sempre renovada para quantos se debruçam sobre as questões filosóficas, a experiência da polêmica incessante, o conflito interminável que divide os filósofos acerca de toda questão filosófica – e o que não se toma questão filosófica? – e de quaisquer soluções que para ela se proponham. Aliás, a mesma experiência reconhecida dessas controvérsias atesta o caráter não-evidente de seus objetos, das teses que as argumentações filosóficas se propõem validar: ‘pois as coisas controversas, na medida em que são controvertidas, são não-evidentes [ádelon]‘ “.
Oswaldo Porchat Pereira – Rumo ao ceticismo. São Paulo: Editora Unesp, 2006, p.152

Filosofia diafônica: “desenvolver o próprio pensamento através do confronto com outros pensamentos” (André Ribeiro)

O que é filosofia?

Na filosofia se estudam os conceitos que todos nós usamos, geralmente de forma não muito consciente, para compreender a realidade.

O objetivo da filosofia é tornar claros e articular os conceitos que servem de fundamentos implícitos aos diversos ramos do conhecimento humano, da ética às ciências exatas.

A filosofia também busca uma visão de conjunto – tenta relacionar os diferentes aspectos da realidade em uma visão global. Assim, ela é um antídoto contra o excesso de fragmentação do conhecimento atual, que impede o entendimento adequado dos acontecimentos que afetam a vida das pessoas neste mundo globalizado, e é a principal responsável pela perda de referências existenciais, fonte de tanta angústia nas pessoas.

O conhecimento filosófico ajuda a ampliar as possibilidades, os modos de se pensar sobre algo, propor novas formas de conhecimentos e a transformar para melhor (espera-se!) a sociedade, a economia, a política e a cultura na qual estamos inseridos.

E também conhecer filosofia é indispensável como bagagem cultural para qualquer pessoa, pois o contato com alguns dos mais importantes cérebros que o Ocidente já produziu contribui para a formação de cidadãos com um pensamento crítico e independente, conhecedoras do contexto histórico, social e econômico em que vivem e qualificadas para serem os agentes responsáveis pela transformação deste em um mundo mais justo e fraterno.

Tudo isso ocorre porque as questões abordadas pela filosofia são as perguntas mais universais feitas pelo ser humano e, por isso, os problemas filosóficos dizem respeito a todos os aspectos da existência humana.

Eis alguns exemplos de perguntas filosóficas: Quem sou eu? O que é a consciência? Como posso saber se as experiências e sensações das outras pessoas são iguais (ou não) às minhas? Tenho liberdade? O que faço é por livre e espontânea vontade, ou determinado por causas sobre as quais não tenho controle? O que é o tempo? Porque ele só anda em uma direção? Qual é a diferença entre passado e futuro? A natureza segue leis? O que são as leis da natureza? O mundo foi criado ou sempre existiu? Por quem? De que é feito? Qual é o meu lugar no mundo, no universo, na sociedade? Como saber se o mundo é realmente como parece ser? O que é o conhecimento? A verdade? Como os obtemos? O que é a ciência? Nossa opiniões são objetivas ou subjetivas? Como saber se uma ação é boa ou má? O que é o bem? O que é o mal?

O filósofo Immanuel Kant (1724-1804) destacava quatro perguntas que, para ele, resumiriam a tarefa da filosofia:

- O que posso saber?
- O que devo fazer?
- O que devo esperar?

E a pergunta que ele considerava a mais importante de todas:

- O que é o homem?

Princípio de Caridade

Se você leu um texto de filosofia e acredita que o autor está dizendo uma grande besteira, é bem provável que você não tenha entendido nada! Lembre-se que filósofos são caras espertos e dedicaram suas vidas inteiramente à filosofia. Você tem certeza que pode competir com eles?


Muitos estudantes de filosofia aplicam o Princípio de Hostilidade aos textos, pensando que é óbvio que deve haver um erro sério em algum lugar, e a sua tarefa consiste apenas em identificá-lo. Eles devem raciocinar assim: para ser filósofo é necessário ter espírito crítico, logo, devo sair criticando tudo, especialmente os textos de filósofos ilustres!

Qual é problema dessa atitude? Bem, os editores desse blog tem certeza que quem ataca um texto só para encontrar seus defeitos e criticá-lo simplesmente não apreende nada! Para apreender é necessária uma disposição de abertura ao que o texto quer dizer – inclusive quando o que é dito vai contra o que você pensa. Repetimos: quem quer apenas confirmar que seu ponto de vista é o melhor de todos está perdendo tempo e dinheiro na filosofia!

Além disso, até as pedras sabem qual é o problema com os grandes clássicos da filosofia. Criticar Descartes por ser dualista ou Kant pelo seu formalismo ético é tão original quanto andar para frente.

Uma tática melhor é aplicar o Princípio da Caridade: se o argumento parece fraco, tente imaginar maneiras em que ele pode ser corrigido ou melhorado. Faça o exercício de defender o texto (mesmo que você não concorde com ele), procurando os argumentos mais fortes possíveis. Tentar, você mesmo, com seu esforço e suas próprias palavras, defender as idéias do autor que estás lendo é a única forma de você estar certo que compreendeu realmente o texto – isso, caso você queira ser algo mais do que um papagaio repetidor das idéias dos outros.

E esse, meu caro/minha cara, é um dos melhores modos de se começar a…. filosofar !!

Mas, todavia, contudo, porém, no entanto….

Mesmo com os melhores esforços, nem todo argumento pode ser salvo! Não, os filósofos não são infalíveis. Sim, há defeitos e contradições e absurdos e bobagens no que filósofos escrevem! Você consegue apontar as falhas do argumento? Tente pensar nas implicações dele: será que não há casos em que ele não se aplica? Será que não há situações nas quais, se o aplicarmos, os resultados seriam absurdos? Será que o autor não diz uma coisa num lugar, e outra em outro lugar (contradição)?

AGORA divirta-se sendo hostil com o texto!

Mas é importante não esquecer que qualquer crítica só é válida se você entendeu o texto. Portanto: primeiro entenda, depois critique.

Thomas Nagel: o que é a filosofia?

A filosofia é diferente da ciência e da matemática. Ao contrário da ciência, ela não se apóia em experimentos ou na observação, mas apenas na reflexão. Ela se faz pela simples indagação e argüição, ensaiando idéias e imaginando possíveis argumentos contra elas, perguntando-nos até que ponto nossos conceitos de fato funcionam.
A principal ocupação da filosofia é questionar e entender idéias muito comuns que todos nós usamos no dia-a-dia sem nem sequer refletir sobre elas. O historiador perguntará o que aconteceu em determinado tempo do passado, enquanto o filósofo indagará: “O que é o tempo?” O matemático investigará as relações entre os números, ao passo que o filósofo perguntará: “O que é um número?” O físico desejará saber de que são feitos os átomos, ou como se explica a gravidade, mas o filósofo indagará como podemos saber se existe alguma coisa fora da nossa mente. O psicólogo talvez pesquise como a criança aprende a linguagem, mas a indagação do filósofo será: “O que dá sentido a uma palavra?” Alguém pode perguntar se é certo entrar sorrateiramente no cinema e assistir ao filme sem pagar, mas o filósofo perguntará: “O que faz com que uma ação seja certa ou errada?”
Não iríamos muito longe se não tivéssemos como certas as idéias de tempo, número, conhecimento, linguagem, certo e errado a maior parte do tempo; mas na filosofia investigamos essas coisas em si. O objetivo é aprofundar um pouco mais nossa compreensão do mundo e de nós mesmos. Obviamente, não é uma tarefa fácil. Quanto mais básicas as idéias que tentamos investigar, menos são os instrumentos de que dispomos para nos ajudar. Não há muita coisa que possamos dar por certa ou garantida. Assim, a filosofia é uma atividade um tanto vertiginosa, e poucos de seus resultados permanecem incontestados por muito tempo.

THOMAS NAGEL
Uma breve introdução à filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2001, pp. 2-4.

Pré-socráticos – observações iniciais

Ao pé-da-letra, “filósofos pré-socráticos” é um rótulo usado para se referir aos filósofos que viveram antes de Sócrates. Mas, como hoje em dia é moda ridicularizar qualquer tentativa de agrupar as coisas em divisões bem definidas, você não terá dificuldade de encontrar livros escritos só para denunciar a falsidade dessa etiqueta – denúncia baseada geralmente na “grande” descoberta de que alguns dos chamados pré-socráticos (Demócrito, por exemplo) foram, na verdade contemporâneos de Sócrates e até de Platão (informação banal que está ao alcance de qualquer um).

Nesse blog sempre ressaltaremos o perigo que há em se juntar vários filósofos em um mesmo escaninho, pois isso serve apenas para escamotear o fato importante (e que não deve ser perdido de vista) que sempre há diferenças marcantes inclusive entre filósofos de uma mesma “escola” ou “ismo”. Berkeley e Locke, por exemplo, são empiristas que viveram na mesma época e no mesmo país, mas isso não quer dizer que eles concordam em tudo (aliás, a principal crítica que as más línguas fazem à filosofia é que filósofos nunca concordam com nada).

Com essa ressalva, devemos notar que, no entanto, há um motivo importante, embora não seja filosófico, mas acidental, pelo qual esses filósofos foram reunidos sob a denominação de “pré-socráticos”: é que, para a nossa imensa infelicidade, não nos restou quase nada do que eles escreveram – praticamente tudo se perdeu.

É que ainda estamos no século VI antes de Cristo, e naquela época não havia editoras nem bibliotecas. A escrita não era valorizada como é hoje, ficando restrita à elite, de modo que pouquíssimas pessoas sabiam escrever ou contar. Não havia nem o papel branquinho feito de celulose com que estamos acostumados hoje: escrevia-se em papiros que estragavam logo. E nem pensar em imprensa: a reprodução de qualquer coisa escrita era feita na base da cópia manual (sem xerox!), processo lento e sujeito a erros – um cenário bastante desestimulante para um escritor! Questiona-se, inclusive, se alguns dos pré-socráticos realmente escreveram algo, ou se as suas teorias não teriam sido transmitidas oralmente, de geração em geração, até que alguém, dezenas ou centenas de anos depois, as colocou no papel (foi o que ocorreu, por exemplo, com os poemas homéricos, Sócrates e Pirro). De qualquer forma, se escreveram algo, seus “livros” se perderam.

Ora, se nenhum escrito sobreviveu, como se sabe algo sobre eles? Como é que vamos estudá-los?

Tudo o que temos dos pré-socráticos são algumas frases e, na melhor das hipóteses, uns poucos parágrafos. Essas frases e parágrafos estão em escritos de outros autores, cujas obras, essas sim, sobreviveram e chegaram até nós.

No século XVIII, um erudito alemão chamado Hermann Diels deu-se ao trabalho de ler toda a literatura grega e separar todas as passagens com informações sobre algum filósofo pré-socrático (eu fico cansado só de pensar no trabalhão que isso deu!). Ele reuniu essas passagens e as publicou em um livro chamado Die Fragmente der Vorsokratiker (Os Fragmentos dos Pré-Socráticos) e a partir daí o nome “pré-socrático” pegou.

Diels dividiu essas passagens (que os eruditos chamam de “testemunhos”) em dois tipos:

- As citações diretas. Por exemplo, em uma passagem o autor diz algo do tipo: Tales afirmava que…, ou dizia, que… O que vem após o “que” é, provavelmente, uma afirmação do próprio Tales. Mas é claro que as coisas não são tão simples, pois os gregos não tinham as convenções que nós usamos hoje para fazer uma citação de outro autor e evitar confusão entre o que nós dissemos e o que o citado disse – hoje nós colocamos uma citação entre aspas ou em uma entrada de parágrafo própria. No grego não há nada disso, e os eruditos se divertem(??) tentando determinar onde exatamente começa ou termina (ou ambos) uma determinada citação (veremos um caso assim quando estudarmos o fragmento de Anaximandro). As citações desse grupo são chamadas pelos eruditos de fragmentos e são marcadas com a letra “B”.

- As citações indiretas. Nesse caso, o autor resume o pensamento de Tales, por exemplo, usando suas próprias palavras, não as de Tales. Os eruditos chamam esses resumos de “paráfrases”. As citações desse grupo são chamadas de doxografia, do grego “doxa” + “grafia”, literalmente algo como “coletânea de opiniões”.

Como exemplo, leiam essa passagem da Metafísica de Aristóteles:

Outros dizem que a terra repousa sobre a água. Com efeito, é esta a explicação mais antiga que recebemos, a qual, segundo dizem, foi dada por Tales de Mileto, a saber: ela mantém-se no devido lugar devido ao fato de flutuar como um madeiro ou algo de semelhante (pois nenhum destes corpos se mantém, por natureza, no ar, mas na água)”.

Notem que Aristóteles usa as expressões “outros dizem que…”, “segundo dizem…”, o que indica que ele não pegou essas informações nos próprios escritos de Tales, mas em algum outro autor (o qual, aliás, Aristóteles não diz quem é: naquela época não haviam as rígidas normas para citar trabalhos de outros que hoje infernizam a vida de quem faz trabalhos para a faculdade….).

Diels também numerou os fragmentos e as doxografias, de modo que se costuma falar do famoso fragmento 8 de Parmênides ou do misterioso fragmento 3 de Heráclito. Assim fica mais prático achar cada passagem.

Para você ter uma idéia do pouco que restou dos pré-socráticos, tudo o que temos de Anaxímenes é uma única frase de 33 palavras (cuja autenticidade é discutida, ainda por cima!) e meras 8 frases sobre o que ele pensava. Anaximandro (e Tales) são os casos extremos, mas mesmo nas melhores situações, como a de Demócrito, do qual temos quase 300 fragmentos (297, para os que gostam de precisão) não ficamos muito melhor informados: reunidos, esses fragmentos ocupam apenas 18 páginas no livrinho de Bornheim (vide bibliografia), e são frases soltas, sem conexão entre si.

1º de abril – homenagem a Epimênides

Hoje é 1º de abril. 1º de abril é o dia da mentira.

Essa afirmação é verdadeira, não?

Mas ela afirma que as coisas ditas em 1º de abril são falsas, e foi dita em 1º de abril.

Logo, como ela mesmo diz, se o que se fala em 1º de abril é falso, então ela própria é falsa.

Mas….

Se é falso que as coisas ditas em 1º de abril são mentiras, então ela é… verdadeira!

Voltamos ao problema: se ela é verdadeira então ela é falsa. Mas, se for falsa ela é verdadeira… e se verdadeira… é falsa… é verdadeira… é falsa… é… é… é… é uma confusão!

Agradeçam a Epimênides!

BIOGRAFIAS: O Primeiro Wittgenstein

Ludwig Joseph Johann Wittgenstein, nascido em Viena no ano de 1889, no seio de uma das famílias mais ricas da Europa, teve uma formação intelectual e cultural bastante peculiar. Viena, a capital do Império Austro-Húngaro, era um centro cosmopolita efervescente de cultura, e a casa dos Wittgenstein era freqüentada por grandes figuras como Brahms e Mahler, participantes assíduos dos saraus promovidos pela família, cujos membros tinham excepcional talento para a música. Educado por tutores e tendo contato com a nata da cultura vienense, a bagagem intelectual de Ludwig foi desde cedo assistemática e bastante eclética. Dos filósofos, leu principalmente Schopenhauer e Kierkegaard. Tendo já muito jovem demonstrado talento para a mecânica, foi estudar Engenharia, e assim, após um período de estudos em Berlim, mudou-se para Manchester, Inglaterra, onde pretendia dedicar-se à aviação.

O interesse de Wittgenstein, entretanto, acabou se desviando para os fundamentos da Matemática, e daí para a Lógica. Impressionado com as obras de G. Frege e posteriormente de B. Russell, foi a Cambridge estudar com este último. Russell ficou maravilhado com o talento e a perspicácia de Wittgenstein, e debruçaram-se os dois sobre os problemas lógicos levantados pelo inglês em suas obras. Wittgenstein era intenso tanto no modo de viver quanto no de filosofar; era um virtuose genial e autoritário, como seus irmãos o eram no terreno da música. Depois de estudar com Russell, Ludwig passou uma temporada numa cabana em uma remota aldeia norueguesa, trabalhando em seus problemas lógicos. Com a declaração da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Wittgenstein alistou-se no Exército do Império Austro-Húngaro e permaneceu no front até o fim do conflito, quando foi feito prisioneiro no norte da Itália. O Tractatus Logico-Philosophicus, uma das principais obras filosóficas do século XX (e dos anteriores também) foi escrito nas trincheiras dessa guerra.

Após a sua soltura em agosto de 1919, Wittgenstein tratou de editar o Tractatus, o que foi bastante difícil devido ao estilo obscuro da obra (os editores temiam investir num livro que não seria compreendido e, por conseguinte, venderia pouco). Somente após a intercessão de Russell, que escreveu um prefácio para a obra, Wittgenstein conseguiu publicar o Tractatus. Após isso, por coerência com as idéias apresentadas no livro, ele abandonou a Filosofia, indo dedicar-se à educação infantil, jardinagem e arquitetura. Voltou aos meios acadêmicos somente em 1929, quando o Tractatus já era o cerne da discussão filosófica tanto em Cambridge quanto nas reuniões do Círculo de Viena.

A melhor trilogia de cinco livros da História

Os papos de bar sempre passam por vários estágios e um deles é aquele em que se comentam as preferências literárias dos ocupantes da mesa. Há, evidentemente, os autores que são bem quistos e os que são odiados. Há, também, escritores cuja simples menção pode levar ao linchamento de quem o citou, como é o caso de Paulo Coelho, muito embora a maioria dos que afirmam odiá-lo nunca tenham lido uma linha sequer do que ele escreveu. Eu, pelo menos, nunca li.

Se você pretende, numa dessas rodas de bar, dizer aos seus amigos que a melhor coisa que já foi escrita por um ser humano é a coleção do Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams, esteja preparado para enfrentar as conseqüências. Todos pararão imediatamente o que estiverem fazendo para olhar para você com uma cara de desdém, como se você tivesse dito uma grande asneira. Alguns certamente pensarão tratar-se de uma brincadeira sua e dirão, em tom de repreensão:

– Pô, a gente tá falando sério e tu fica de frescura!

Veja só, até parece que você citou o Paulo Coelho… E você tem uma vontade louca de chamar a todos de Vogons e dizer que você está falando sério, que a série do Guia do Mochileiro das Galáxias é uma crítica à sociedade ocidental, que a saga ridiculariza os nossos maiores defeitos com fina ironia e humor negro. Você quer dizer que o Guia… aborda temas profundos com muita sabedoria e acuidade, apresentando respostas singelas para problemas complexos. Mas não adianta dizer nada disso. Eles não acreditarão, a menos que o livro se chame Crime e Castigo.

Tenho um segredo para contar: a série do Guia do Mochileiro das Galáxias é a melhor coisa que já foi escrita por um ser humano. Como foi mesmo que eu conheci a obra de Adams? Ela me foi indicada por um amigo e, ao ouvir o título, eu parei o que estava fazendo e fiquei olhando pra ele com uma cara de desdém. Mas, depois que ele me passou o livro, e eu abri o livro e li o comecinho – só o comecinho – do livro, eu pedi, implorei que ele me emprestasse o livro. Aquele era o primeiro da série. A coleção é uma “trilogia de cinco livros” (embora alguns não considerem o último livro parte da série):

I. O Guia do Mochileiro das Galáxias
II. O Restaurante no Fim do Universo
III. A Vida, O Universo e Tudo Mais
IV. Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes (o piorzinho)
V. Praticamente Inofensiva

A história concebida por Adams é a saga de Arthur Dent, um inglês arquetípico, em suas viagens pelo Universo. Tudo começa quando Arthur descobre que seu melhor amigo, Ford Prefect, é na verdade um alienígena oriundo de Betelgeuse, justamente no dia em que a Terra é demolida por naves Vogons para facilitar a construção de uma via expressa hiperespacial. Arthur e Ford conseguem fugir de carona num disco voador e acabam sendo resgatados pela nave Coração de Ouro, que foi roubada pelo presidente da Galáxia, Zaphod Beeblebrox, que saiu em busca da resposta para a pergunta pelo sentido da Vida, do Universo e de Tudo Mais. Eles descobrem essa resposta, descobrem também a verdade sobre a criação e a destruição da Terra, a verdade sobre o homem que governa o Universo, a origem dos colchões de molas, do jogo de críquete e o porquê das guerras étnicas, além de ter acesso à mensagem final de Deus às suas criaturas.

Muitas descobertas, como você vê. Adams é iconoclasta e irreverente. Desdenha das instituições e das regras sociais mostrando o ridículo por trás delas. Exercita o sutil humor britânico e o leva à perfeição. Sua galeria de personagens contém alguns dos tipos mais engraçados e originais da Literatura: Arhur, um inglês mau-humorado que nunca entende o que está acontecendo; Zaphod, o playboy egocêntrico que preside a Galáxia mas não governa; Marvin, o andróide-paranóide, pessimista e depressivo, responsável por algumas das melhores tiradas de todos os tempos; Trillian, uma ex-astrofísica desempregada que fugiu com Zaphod em um disco voador; Ford, o repórter que só quer saber de beber e se divertir…

Uma obra de arte, creiam-me. Então, quando você estiver em um bar e alguém mencionar o Guia do Mochileiro das Galáxias, por favor, trate Douglas Adams com o respeito que ele merece.