Ao pé-da-letra, “filósofos pré-socráticos” é um rótulo usado para se referir aos filósofos que viveram antes de Sócrates. Mas, como hoje em dia é moda ridicularizar qualquer tentativa de agrupar as coisas em divisões bem definidas, você não terá dificuldade de encontrar livros escritos só para denunciar a falsidade dessa etiqueta – denúncia baseada geralmente na “grande” descoberta de que alguns dos chamados pré-socráticos (Demócrito, por exemplo) foram, na verdade contemporâneos de Sócrates e até de Platão (informação banal que está ao alcance de qualquer um).
Nesse blog sempre ressaltaremos o perigo que há em se juntar vários filósofos em um mesmo escaninho, pois isso serve apenas para escamotear o fato importante (e que não deve ser perdido de vista) que sempre há diferenças marcantes inclusive entre filósofos de uma mesma “escola” ou “ismo”. Berkeley e Locke, por exemplo, são empiristas que viveram na mesma época e no mesmo país, mas isso não quer dizer que eles concordam em tudo (aliás, a principal crítica que as más línguas fazem à filosofia é que filósofos nunca concordam com nada).
Com essa ressalva, devemos notar que, no entanto, há um motivo importante, embora não seja filosófico, mas acidental, pelo qual esses filósofos foram reunidos sob a denominação de “pré-socráticos”: é que, para a nossa imensa infelicidade, não nos restou quase nada do que eles escreveram – praticamente tudo se perdeu.
É que ainda estamos no século VI antes de Cristo, e naquela época não havia editoras nem bibliotecas. A escrita não era valorizada como é hoje, ficando restrita à elite, de modo que pouquíssimas pessoas sabiam escrever ou contar. Não havia nem o papel branquinho feito de celulose com que estamos acostumados hoje: escrevia-se em papiros que estragavam logo. E nem pensar em imprensa: a reprodução de qualquer coisa escrita era feita na base da cópia manual (sem xerox!), processo lento e sujeito a erros – um cenário bastante desestimulante para um escritor! Questiona-se, inclusive, se alguns dos pré-socráticos realmente escreveram algo, ou se as suas teorias não teriam sido transmitidas oralmente, de geração em geração, até que alguém, dezenas ou centenas de anos depois, as colocou no papel (foi o que ocorreu, por exemplo, com os poemas homéricos, Sócrates e Pirro). De qualquer forma, se escreveram algo, seus “livros” se perderam.
Ora, se nenhum escrito sobreviveu, como se sabe algo sobre eles? Como é que vamos estudá-los?
Tudo o que temos dos pré-socráticos são algumas frases e, na melhor das hipóteses, uns poucos parágrafos. Essas frases e parágrafos estão em escritos de outros autores, cujas obras, essas sim, sobreviveram e chegaram até nós.
No século XVIII, um erudito alemão chamado Hermann Diels deu-se ao trabalho de ler toda a literatura grega e separar todas as passagens com informações sobre algum filósofo pré-socrático (eu fico cansado só de pensar no trabalhão que isso deu!). Ele reuniu essas passagens e as publicou em um livro chamado Die Fragmente der Vorsokratiker (Os Fragmentos dos Pré-Socráticos) e a partir daí o nome “pré-socrático” pegou.
Diels dividiu essas passagens (que os eruditos chamam de “testemunhos”) em dois tipos:
- As citações diretas. Por exemplo, em uma passagem o autor diz algo do tipo: Tales afirmava que…, ou dizia, que… O que vem após o “que” é, provavelmente, uma afirmação do próprio Tales. Mas é claro que as coisas não são tão simples, pois os gregos não tinham as convenções que nós usamos hoje para fazer uma citação de outro autor e evitar confusão entre o que nós dissemos e o que o citado disse – hoje nós colocamos uma citação entre aspas ou em uma entrada de parágrafo própria. No grego não há nada disso, e os eruditos se divertem(??) tentando determinar onde exatamente começa ou termina (ou ambos) uma determinada citação (veremos um caso assim quando estudarmos o fragmento de Anaximandro). As citações desse grupo são chamadas pelos eruditos de fragmentos e são marcadas com a letra “B”.
- As citações indiretas. Nesse caso, o autor resume o pensamento de Tales, por exemplo, usando suas próprias palavras, não as de Tales. Os eruditos chamam esses resumos de “paráfrases”. As citações desse grupo são chamadas de doxografia, do grego “doxa” + “grafia”, literalmente algo como “coletânea de opiniões”.
Como exemplo, leiam essa passagem da Metafísica de Aristóteles:
“Outros dizem que a terra repousa sobre a água. Com efeito, é esta a explicação mais antiga que recebemos, a qual, segundo dizem, foi dada por Tales de Mileto, a saber: ela mantém-se no devido lugar devido ao fato de flutuar como um madeiro ou algo de semelhante (pois nenhum destes corpos se mantém, por natureza, no ar, mas na água)”.
Notem que Aristóteles usa as expressões “outros dizem que…”, “segundo dizem…”, o que indica que ele não pegou essas informações nos próprios escritos de Tales, mas em algum outro autor (o qual, aliás, Aristóteles não diz quem é: naquela época não haviam as rígidas normas para citar trabalhos de outros que hoje infernizam a vida de quem faz trabalhos para a faculdade….).
Diels também numerou os fragmentos e as doxografias, de modo que se costuma falar do famoso fragmento 8 de Parmênides ou do misterioso fragmento 3 de Heráclito. Assim fica mais prático achar cada passagem.
Para você ter uma idéia do pouco que restou dos pré-socráticos, tudo o que temos de Anaxímenes é uma única frase de 33 palavras (cuja autenticidade é discutida, ainda por cima!) e meras 8 frases sobre o que ele pensava. Anaximandro (e Tales) são os casos extremos, mas mesmo nas melhores situações, como a de Demócrito, do qual temos quase 300 fragmentos (297, para os que gostam de precisão) não ficamos muito melhor informados: reunidos, esses fragmentos ocupam apenas 18 páginas no livrinho de Bornheim (vide bibliografia), e são frases soltas, sem conexão entre si.
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