Princípio de Caridade

Se você leu um texto de filosofia e acredita que o autor está dizendo uma grande besteira, é bem provável que você não tenha entendido nada! Lembre-se que filósofos são caras espertos e dedicaram suas vidas inteiramente à filosofia. Você tem certeza que pode competir com eles?


Muitos estudantes de filosofia aplicam o Princípio de Hostilidade aos textos, pensando que é óbvio que deve haver um erro sério em algum lugar, e a sua tarefa consiste apenas em identificá-lo. Eles devem raciocinar assim: para ser filósofo é necessário ter espírito crítico, logo, devo sair criticando tudo, especialmente os textos de filósofos ilustres!

Qual é problema dessa atitude? Bem, os editores desse blog tem certeza que quem ataca um texto só para encontrar seus defeitos e criticá-lo simplesmente não apreende nada! Para apreender é necessária uma disposição de abertura ao que o texto quer dizer – inclusive quando o que é dito vai contra o que você pensa. Repetimos: quem quer apenas confirmar que seu ponto de vista é o melhor de todos está perdendo tempo e dinheiro na filosofia!

Além disso, até as pedras sabem qual é o problema com os grandes clássicos da filosofia. Criticar Descartes por ser dualista ou Kant pelo seu formalismo ético é tão original quanto andar para frente.

Uma tática melhor é aplicar o Princípio da Caridade: se o argumento parece fraco, tente imaginar maneiras em que ele pode ser corrigido ou melhorado. Faça o exercício de defender o texto (mesmo que você não concorde com ele), procurando os argumentos mais fortes possíveis. Tentar, você mesmo, com seu esforço e suas próprias palavras, defender as idéias do autor que estás lendo é a única forma de você estar certo que compreendeu realmente o texto – isso, caso você queira ser algo mais do que um papagaio repetidor das idéias dos outros.

E esse, meu caro/minha cara, é um dos melhores modos de se começar a…. filosofar !!

Mas, todavia, contudo, porém, no entanto….

Mesmo com os melhores esforços, nem todo argumento pode ser salvo! Não, os filósofos não são infalíveis. Sim, há defeitos e contradições e absurdos e bobagens no que filósofos escrevem! Você consegue apontar as falhas do argumento? Tente pensar nas implicações dele: será que não há casos em que ele não se aplica? Será que não há situações nas quais, se o aplicarmos, os resultados seriam absurdos? Será que o autor não diz uma coisa num lugar, e outra em outro lugar (contradição)?

AGORA divirta-se sendo hostil com o texto!

Mas é importante não esquecer que qualquer crítica só é válida se você entendeu o texto. Portanto: primeiro entenda, depois critique.

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