O conceito de physis

Bornheim., G. Os Filósofos Pré-socráticos, p. 11-4:

Aristóteles, em sua Metafisica, chamou os filósofos pré-socráticos de physikoi, físicos. A expressão não é incorreta, mas presta-se facilmente a equívocos. A “física” pré-socrática nada tem a ver com a física na acepção moderna da palavra, assim como a physis não pode ser traduzida sem mais pela palavra natureza. Hoje, a natureza tende a confundir-se sempre mais com o objeto das ciências da natureza, com algo que pode ser dominado pelo homem, que pode ser posto a seu serviço e canalizada em termos de técnica. Desta forma, a natureza transforma-se em expressão da vontade de poder.

Mas não é dentro desta perspectiva que podemos aceder ao conceito pré-socrático da natureza. A física das primeiros filósofos gregos não é uma disciplina que se contraponha a outras disciplinas, como a Lógica, a Ética ou a Física tal como se a compreende hoje. Se chamarmos, com Aristóteles, de física a filosofia pré-socrática devemos entender por esta expressão o ser do ente na sua totalidade.

Como a physis é o conceito fundamental de todo o pensamento pré-socrático, cabem aqui algumas breves observações introdutórias ao tema.

Etimologicamente, physis é um abstrato formado pelo sufixo sis e pela raiz verbal phy; na voz ativa: phúein, na voz média: phúesthai. Patzer analisa a palavra em função de Homero, e constata que estas duas formas verbais são aplicadas preferencialmente ao mundo vegetal. Na voz ativa significa produzir (como o bosque que na primavera produz folhas), e na voz média significa crescer (aos ciclopes, “tudo cresce sem semente e sem arado”). O reino vegetal seria, assim, o originário, estendendo-se, mais tarde, o significado do verbo a ponto de assumir uma amplidão máxima. Jaeger diz que a palavra physis designa o processo de surgir e desenvolver-se, razão pela qual os gregos a usavam freqüentemente com um genitivo. E acrescenta Jaeger: “Mas a palavra abarca também a fonte originária das coisas, aquilo a partir do qual se desenvolvem e pelo qual se renova constantemente o seu desenvolvimento; com outras palavras, a realidade subjacente às coisas de nossa experiência”. Burnet, por sua vez, afirma que “na língua filosófica grega, physis designa sempre o que é primário, fundamental e persistente, em oposição ao que é secundário, derivado e transitório”.

Já por estas sumárias indicações percebe-se a densidade filosófica que acompanha a palavra physis, conceito complexo do qual depende a compreensão que se possa ter do pensamento pré-socrático. Insistindo um pouco mais no problema, podemos destacar três aspectos fundamentais da physis:

1) A palavra physis indica aquilo que por si brota, se abre, emerge, o desabrochar que surge de si próprio e se manifesta neste desdobramento, pondo-se no manifesto. Trata-se, pois, de um conceito que nada tem de estático, que se caracteriza por uma dinamicidade profunda, genética. “Dizer que o Oceano é a gênese de todas as coisas é virtualmente o mesmo que dizer que é a physis de todas as coisas”, afirma Werner Jaeger referindo-se a Homero. Neste sentido, a physis encontra em si mesma a sua gênese; ela é arké, princípio de tudo aquilo que vem a ser. O pôr-se no manifesto encontra na physis a força que leva a ser manifesto. Por isto pode Heidegger dizer que “a physis é o próprio ser, graças ao qual o ente se torna e permanece observável”.

2) Em nossos dias, a natureza se contrapõe ao psíquico, ao anímico, ao espiritual, qualquer seja o sentido que se empreste a estas palavras. Mas para os gregos, mesmo depois do período pré-socrático, o psíquico também pertence à physis. Esta importante dimensão da physis pode ser melhor compreendida a partir de sua gênese mitológica. Lá afirmamos que os deuses gregos não são entidades sobrenaturais, pois são compreendidos como parte integrante da natureza. Em Homero, por exemplo, a presença dos deuses aparece como superior aos homens e ao mesmo tempo como algo que lhes é próximo: os deuses estão presentes em tudo o que acontece e tudo acontece como que através dos deuses. Esta presença transparece ainda em Tales, na frase que lhe é atribuída: “tudo está cheio de deuses”. Evidentemente, com o surto da Filosofia a atitude do homem frente às coisas sofre uma transformação, acentuando-se a exigência de racionalidade. Segundo Jaeger, Tales emprega a palavra deus “em um sentido um tanto distinto daquele em que a empregariam a maioria dos homens”. Os deuses de Tales não vivem em uma região longínqua, separada, pois tudo, todo o mundo que rodeia o homem e que se oferece ao seu pensamento, está cheio de deuses e dos efeitos de seu poder. “Tudo está cheio de misteriosas forças vivas; a distinção entre a natureza animada e a inanimada não tem fundamento algum; tudo tem uma alma. Esta idéia da alma, de forças misteriosas que habitam a physis, transforma a esta em algo de inteligente, empresta-lhe certa espiritualidade, afastando-a do sem-sentido, anárquico e caótico. Veja-se, como exemplo, o fragmento 67, de Heráclito: “Deus é dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, abundância e fome. Mas toma formas variadas, assim como o fogo, quando misturado com essências, toma o nome segundo o perfume de cada uma delas.” Ou ainda o fragmento 64: “O relâmpago (que é a arma de Zeus) governa o universo.” Esta idéia de que o deus pertence em algum sentido à physis é característica de todo o pensamento pré-socrático, e continua viva mesma em Demócrito, como o atestam os fragmentos 18, 21, 112 e 129. À physis pertence, portanto, um principio inteligente, que é reconhecido através de suas manifestações e ao qual se emprestam os mais variados nomes: Espírito, Pensamento, Inteligência, Logos, etc.

3) A physis compreende a totalidade de tudo o que é. Ela pode ser apreendida em tudo o que acontece: na aurora, no crescimento das plantas, na nascimento de animais e homens. E aqui convém chamar a atenção para um desvio em que facilmente incorre o homem contemporâneo. Posto que a nossa compreensão do conceito de natureza é muito mais estreita e pobre que a grega, o perigo consiste em julgar a physis como se os pré-socráticos a compreendessem a partir daquilo que nós hoje entendemos por natureza; neste sentido, se comprometeria o primevo pensamento grego com uma espécie de naturalismo. Em verdade, a physis não designa precisamente aquilo que nó, hoje, compreendemos por natureza, estendendo-se, secundariamente ao extranatural. Para os pré-socráticos, já de saída, o conceito de physis é o mais amplo e radical possível, compreendendo em si tudo o que existe. Não se compreende o psíquico, por exemplo, a partir do modo de ser da natureza em seu sentido atual, como não se entende os deuses a partir de nosso conceito mais parco de natureza. À physis pertencem o céu e a terra, a pedra e a planta, o animal e a homem, o acontecer humano como obra do homem e dos deuses, e, sobretudo, pertencem à physis os próprios deuses. Devido a esta amplidão e radicalidade, a palavra physis designa outra coisa que o nosso conceito de natureza. Vale dizer que na base do conceito de physis não está a nossa experiência da natureza, pois a physis possibilita ao homem uma experiência totalmente outra que não a que nós temos frente à natureza. Assim, a physis compreende a totalidade daquilo que é; além dela nada há que possa merecer a investigação humana. Por isto, pensar o todo do real a partir da physis não implica em “naturalizar” todos os entes ou restringir-se a este ou aquele ente natural. Pensar o toda do real a partir da physis é pensar a partir daquilo que determina a realidade e a totalidade do ente.

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Uma resposta

  1. Ainda bem que existe alguém com integridade, raciocinio iluminado e inegoísta para não distorcer as verdades dos sábios.
    Parabens

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